quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Episódio 7: O ápice, nas profundezas. (Taganga e Bogotá)

Já começo me explicando: costumo ter ate algum sucesso em seguir olhar para o futuro e projetar-me nele. Contudo, tenho lançado mao de certa flexibilidade (em alguns momentos, excessiva) para abrir mao de meus planos e deixar o acaso decidir o que vem pela frente.

Quando ainda estava em Medellín, recebi um e-mail da companhia aérea notificando uma pequena alteraçao em meu voo de Cartagena a San Andres. Bobagem, só mudaram algumas datas e tornaram quase impossível meu retorno até o Brasil. Somado a esse detalhe, eu já vinha percebendo que San Andrés era uma destinaçao massiva de casais em lua-de-mel. Ou seja, cara. Mais ainda: eu provavelmente iria para lá sozinho, e teria que dizer adeus aos amigos que fiz em Bogotá e Medellín. Até a próxima, San Andrés. Quem sabe na minha lua-de-mel.

Nao poderia ter feito escolha melhor. Troquei San Andres por Taganga, uma vila de pescadores no mar do Caribe que, nos ultimos dez anos, foi invadida por mochileiros israelenses e argentinos (basicamente, as duas nacionalidades mais festivas do globo terrestre, ame ou odeie). Contudo, o destino que tinha tudo para ser um pesadelo de viagem foi completamente ressignificado pelo acaso e pelas pessoas que ele trouxe. Sophie, Scott e eu encontramos um quarto triplo em um hostal bom e barato e passamos quatro dias falando de tudo, comendo frutos do mar, tomando a cerveja tipicamente nao-gelada colombiana e vendo o por-do-sol no mar do Caribe. Nada mal.

Com Sophie no pôr-do-sol.

E o pôr-do-sol il-même.

E entao veio o primeiro adeus. Sophie resolveu fazer uma caminhada de seis dias até La Ciudad Perdida. Evitei a despedida ao maximo, dei um abraco curto e sai correndo. E muito doloroso saber que voce pode nunca mais ver um companheiro de viagem que se tornou completamente intimo em duas semanas. E no dia seguinte, eu e Scott tivemos uma ideia para rebater o bote da despedida:

Curso de mergulho.


Absolutamente imprevisivel. Procuramos uma agencia recomendada por todos os mergulhadores que conhecemos na cidade e resolvemos tirar nossa certificaçcao PADI de Open Water. Com esse certificado, voce pode fazer mergulhos independentes até 18m de profundidade.

E valeu a pena. Foram 3 dias de curso intensivo. 3 horas de video, 3 horas de aula teorica, 2 mergulhos a 3 metros de profundidade para treinar todas as tecnicas de seguranca e socorro ao companheiro. Vazamento de tanque de oxigenio, respiracao por fontes alternativas, subidas de emergencia, equalizacao de pressao, desprendimento da máscara...

Nao foi facil. Na primeira hora embaixo dágua, entrei em panico. Não fomos feitos para estar aqui, pensava.



O panico passou no dia seguinte. Foi só mergulhar um pouco mais fundo - a 12, e depois, 18 metros, para ver o que o fundo do mar é capaz de nos esconder. E durante esses três dias, mergulhar era como entrar em um novo mundo, com novas regras, outras belezas e suas próprias dinâmicas. Me senti como um recém-nascido.


E tive o privilégio de partilhar de um momento desses com um amigo que entendia até mesmo o meu silêncio. Aliás, foram três dias de horas e horas de silêncio, leituras e, vez ou outra um comentário aleatório. Voce viu aquele peixe-leão? Você conseguia pensar em alguma coisa quando tudo o que você via era o azul profundo?

E ao fim do curso, uma prova. E ao fim da prova, várias garrafas de vinho. Celebrávamos como tivéssemos nos formado em um curso de graduação. Não era tanto a importância da conquista. Era o valor de partilhá-la.

Taganga foi, dessa forma, feita de momentos partilhados. Conversas ocasionais. Várias garrafas de cerveja. Jantares inesquecíveis na "Casa de Felipe", um hostel que tem um chef suício. O pôr-do-sol, sempre. E o azul profundo.

Por tudo isso, deixar Taganga no domingo foi uma verdadeira prova de fogo. Mas a gente sabe quando tem que ir. Scott e eu nos abraçamos bem apertado. Até a próxima, amigão. E decola o avião de volta para Bogotá. E, dois dias depois, decola o avião de volta para o Brasil. E acabou.

E acabou mais uma viagem que vai ficar para sempre na memória. Essencialmente, por ter sido uma jornada de compartilhamento. De provas de amizade de verdadeiros desconhecidos. De momentos inesquecíveis, por terem sido vividos junto. De vinte e dois dias que foram intensos a ponto de caber um ano.

Obrigado, Colômbia. Até a próxima.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Episodio 5: Muralhas (Cartagena)

Nao sei o que faz as pessoas viajarem. Ha aqueles que viajam movidos pelo hedonismo de esquecer a vida cotidiana e pasar seis ou sete dias longe de casa. Ha tambem os que chegam a lugares desconhecidos sem, jamais, deixar de lado os valores, habitos e parametros aos quais se apegam em suas terras de origem. Ha os que deixam tudo de lado e procuram absorver as verdades que aprendem longe de casa. Ha aqueles que saem em busca de verdades.

Talvez eu nao me encontre entre nenhum desses viajantes. Porque nao sai em busca de nada. Mas, inegavelmente, ja encontrei muito.

E nao tenho problema algum em me repetir. Ainda que eu conheca a minha vontade de aprender, nao imaginava aprender tanto. Ainda que saiba da minha capacidade de conhecer outras pessoas, nao imaginava encontrar amigos tao fieis, amaveis e companheiros por aqui.

Esse prologo tem uma razao especial. Cartagena e uma cidade famosa por suas muralhas e pelos tesouros arquitetonicos que elas guardam. Mas, ao chegar ali, fui recebido com outra muralha: a duvida.

Sai de Medellin ja decidido a seguir viagem com a Sophie e o Scott. Sophie tomaria um voo uma hora depois do meu. Scott chegaria em dois dias. De Cartagena, o plano era seguir viagem ate onde nossos caminhos nos permitissem.

Rachei um taxi com a Sophie e mais dois franceses ate o aeroporto. Antes de embarcar, algumas horas de conversa sobre metafisica, aprendizados e muralhas. Embarque. Decolagem, aterrissagem, conexao, decolagem de novo. Bem-vindo a Cartagena, o paraiso e aqui, diz o outdoor de frente para o aeroporto. E ali esperei, esperei, esperei e o voo da Sophie chegou. Ela nao.

Sem celular e com todos os estabelecimentos fechados, nada de comunicacao entre nos. Com os planos em ruinas, era hora de enfrentar as minhas proprias muralhas e seguir em frente. Peguei o primeiro taxi que vi e fui em busca de um hostel as 11 da noite. Nao foi facil - Cartagena e um dos grandes centros turisticos da America do Sul e pelo menos os 3 primeiros que conferi estavam lotados. Por fim, achei um lugar minimamente decente e fiquei por la.

Cartagena alem dos muros

Talvez tenha sido a noite mais dificil da viagem inteira. Teria sido ainda mais dificil se eu nao tivesse visto o recado que a Sophie tinha me deixado no Facebook. O voo dela atrasou, ela teria perdido a conexao para Cartagena e a companhia aeria a colocou em um hotel cinco estrelas ate a manha seguinte. Menos mal.

Na manha seguinte ela chegou, procuramos um quarto para tres (agaurdando o Scott) e a primeira muralha de Cartagena foi transposta. Fomos, entao, conhecer as outras muralhas que ali nos aguardavam.


Sem duvida alguma, e uma cidade maravilhosa. As margens do Mar do Caribe, Cartagena consegue encantar com as centenas de casas charmosas e coloridas. Sao as cores fortes da Colombia, ja anunciadas pela sua bandeira. Vermelho terra, azul royal, amarelo manga, verde musgo. Nada mais prazeiroso por fazer ali do que perambular pela ciudad amurallada e se perder entre as ruelas e as cores cartageneras.

Aproveitar Cartagena, contudo, exige cruzar uma outras muralhas: o calor quase desumano e todo o aparato turistico da cidade. Por todos os lados, turistas de camisa florida, chapeu panama e bermudinhas de turista. Em cada esquina, um vendedor tentando te convencer a comprar o seu produto imperdivel. E os precos nao sao tao convidativos - a tendencia e gastar muito por muito pouco - o que inclui a comida. Vale a pena pesquisar bastante e nao cair nas armadilhas para gringos. Ainda assim, a cidade pode oferecer experiencias inesqueciveis.

Uma delas e o por do sol. Uma parada quase obrigatoria e o Cafe Del Mar, cafe conhecido internacionalmente pela musica lounge e pelos deliciosos coqueteis. Em Cartagena, o Cafe del Mar fica sobre um dos antigos postos de vigia da muralha, de frente para a praia. Nao foi um dos programas mais baratos da viagem, mas o porre de Long Island incitado pelas cores do por do sol valeu a pena.

Cafe del Mar

A outra, certamente, e a salsa noturna do Cafe Havana. Os amantes de boa musica certamente se apaixonarao pelas bandas que passam por ali, pelos casais que dancam a ponto de fazer inveja a qualquer nao iniciado e, certamente, pelos melhores mojitos que podem ser encontrados na America do Sul.

Noite de salsa franco-anglo-brasileira

Passar por Cartagena consistiu em atravessar muralhas. Uma boa experiencia, sem duvida alguma, ainda que com alguns momentos dificeis. Momentos que ressignificaram toda a minha viagem, pontuados pelos reencontros. Sophie e Scott nos reunimos no sabado a noite e, ja decididos a seguir viagem, resolvemos explorar mais um pouco do litoral colombiano. E nos nao tinhamos ideia dos momentos inesqueciveis que viveriamos as margens do Mar do Caribe.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Episódio 4: As luzes, a primavera e a cidade (Medellín)

A cidade da eterna primavera: é assim que os colombianos apelidaram Medellín, terra de Pablo Escobar, localizada entre montanhas mais baixas que as da cordilheira. A combinaçao altitude/latitude presenteou a cidade com temperaturas amenas e um céu azul anil quase o ano todo. Mais uma vez, uma grata surpresa para quem se aventura tao próximo a linha do Equador.

Ao chegar por là, logo descobri que Medellín tem feito muito para mostrar ao mundo que os tempos da violência e do cartel já se foram. A cidade, entao, tem se prestado a um projeto de urbanizaçao muito legal, contando com uma boa tradiçao de espaços publicos de qualidade em que todos podem se divertir. De graça.

Com Gaspard (França) na Plaza Mayor.

Como cheguei no dia 10, pude conferir o ultimo dia do parque de luzes de natal que foi feito às margens do Rio Medellín. E acreditem - quando os colombianos falam de luzes natalinas, sao luzes natalinas de fato. Quarteiroes e quarteiroes de luzes, anjos, fontes coloridas e toda sorte de penduricalhos. As fontes, inclusive, eram tomadas por meninos já encharcados pelos banhos refrescantes.


A cidade è cheia de praças e lugares para usufruto público. Também foi muito legal conferir o Parque de los Pies Descalzos. Ali, os passantes sao encorajados a tirar uma ou duas horinhas do dia de trabalho para caminhar pela praça e molhar os pezinhos nas diversas fontes do lugar.

Alèm disso, o Museo de Antioquia (estado, ou melhor, departamento de que Medellín è capital) tem um acervo enorme de esculturas, desenhos e pinturas do Botero. Depois dele, nada melhor que tomar uma cerveja na praça central da cidade e comer patacones e empanadas na feirinha que fica logo ao lado. E, claro, ainda ganhar o seu dia com uma conversa deliciosa com a vendedora, que sabe tudo de futebol e jà está juntando as pratinhas para chegar ao Brasil em 2014.

Curtindo a vista do Museo de Antioquia, depois de um banho de Botero.

Agora a verdadeira liçao de Medellín está no sistema de transporte público. O metrô, que abrange toda parte da cidade, foi recentemente interligado aos metrocables - teleféricos, de transferencia gratuita para passageiros do metrô. Agora o mais legal é o destino desses teleféricos: os cerros (morros) que, assim como no Brasil, sao áreas ocupadas por pessoas em situaçao de risco socioeconomico. O que eles fizeram: construìram parques e bibliotecas no alto dos morros. Assim, nao só as pessoas que vivem ali se integram ao centro por meio do metrocable, mas também os turistas e moradores da regiao vao até lá para conferir os espaços culturais, além da bela vista panoramica da cidade.

Vista do teleférico

Garoto curtindo a vista do alto do Cerro, no edifìcio da biblioteca do Parque España


Enfim: numa viagem, sempre as pessoas. Gaspard, Scott e Sophia vieram atè Medellìn para passar uns dias a mais comigo. E isso foi sensacional. É aquela història: uma viagem é conhecer lugares. A outra, fazer amigos. E que eu siga me aventurando pelas duas.

No pròximo episódio: pânico em Cartagena, o calor do Caribe e as cores impressionantes de ciudad amurrallada.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Episódio 3: Sobre arepas, saludos e busetas (Bogotá)

Bogotá foi, definitivamente, uma cidade que me conquistou aos poucos. Agora, já longe dela, tenho vontade de voltar.

A proximidade a linha do Equador e a altitude dos Andes garantem um clima frio e chuvoso durante todo o ano. Funciona mais ou menos assim: sol pela manha, tempo nublado a tarde, chuva de tardinha e muito frio a noite. Isso, obviamente, garante a cidade uma atmosfera de inverno constante - o que faz as pessoas consideravelmente mais chiques e bem vestidas. Andei vendo muitos cachecóis, boinas e sobretudos por lá.

Uma rua qualquer da Candelaria, bairro de Bogotá.

Eu fiquei me perguntando se sao esses ares de inverno que fazem as pessoas tao polidas por lá. Acho que nao - já em outras regioes mais quentes da Colombia, percebi que a boa educacao é a regra número um de todo filho dessa terra. Boa educacao que tambem é sinonimo de formalidade: por aqui, voce nao simplesmente pede uma informacao. Dá bom dia, pergunta como a pessoa vai, faz a sua pergunta e depois ainda pede por favor. Informacao recebida, voce agradece e deseja que a pessoa passe bem.

Em uma dessas conversas inesquecíveis com um vendedor do mercado de pulgas.

É claro que essas conversas ocasionais, vez ou outra, me levaram as gargalhadas. O motivo - os (vários) falsos cognatos que encontramos por aqui. Uma palavra muito corriqueira, por exemplo, é a buseta (pronunciada como o palavrao brasileiro. Nao se preocupem - pegar a buseta aqui nada mais é que entrar em um onibus. Mais legal ainda: se gostar do passeio, pode falar que voce gozou. Gozar, aqui, nada mais é que aproveitar.

Eu e Lina (Colombia), com uma autentica buseta colombiana.

E por falar em aproveitar, a comida colombiana é deliciosa. Dá pra gozar muito! Por aqui, o corrente sao as arepas (uma espécie de panqueca de milho que pode vir com toda espécie de recheio), os patacones (uma massa de banana prensada deliciosa) e muita carne acompanhada de arroz. Os feijoes sao enormes - e deliciosos - e há sempre uma boa variedade de frutas por todo canto. E, claro, nao poderiamos deixar de falar do café. Esse é um espetáculo a parte, que pode ser conferido em qualquer unidade do Juan Valdez Café, como nessa aqui, do Centro Cultural Garcia Marquez.


Por fim, Bogotá se mostrou um lugar extremamente especial por uma coisa: as pessoas. Nos cinco dias que fiquei por lá, consegui fazer vários amigos e viver momentos inesquecíveis. Foram horas de piadas e trocadilhos com as busetas brasileiras, muita conversa séria sobre o jeito colombiano de ver o mundo e uma troca realmente intensa de experiencias. Viajar é isso.

Colombianos, brasileiros, americanos e franceses na Tienda de Céci.

E também é estar aberto ao imprevisível. No próximo episódio, a minha chegada a Medellín, como uma companhia aérea mudou a minha vida e a minha alegria ao rever rostos conhecidos.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Episódio 2: ¿16 con qué? (Bogotá)

Engracado o quanto, em quatro dias de viagem, já consegui me sentir em casa por aqui. E sentir-se em casa, para mim, significa duas coisas: nutrir afeto por um lugar e aprender com ele.

Hoje falo um pouquinho do que já aprendi. Certamente, o primeiro grande fator desarticulador para um viajante na Colombia é o sistema de enderecos daqui. Voce chega ao aeroporto e descobre que o endereco do seu destino é esse: Cll 16 #2-43 Algo entre código morse e os números de Lost.

Para saber o que fazer disso, nada como pedir informacoes e recebe-las com um belo sorriso colombiano estampado na cara. Entao vamos lá:

Bogotá fica no pé das montanhas dos Andes. De todo lugar, elas sao uma fácil referencia visual. E aqui as ruas sao divididas em Calles (Cll) e Carreras (Cra). As Calles vao em direcao as montanhas, do ocidente ao oriente. As Carreras cruzam a cidade de norte a sul.

Com Scott (EUA), Cina (Alemanha), Patrizia (Alemanha) e Petros (Brasil) numa calle da Candelaria. Os Andes ao fundo, certo?

Funciona assim: Se voce vai a Cll 16 #2-43, voce quer chegar a Calle 13. O seu destino está próximo a Carrera 2. A 43 metros, para ser exato. Número 43. Já, por exemplo, se voce vai a Cra 7 #89-24, voce vai parar na Carrera Séptima (principal da cidade), perto da Calle 89, número 24. Simples assim.

No centro histórico, contudo, alguns nomes foram assinalados as Calles e Carreras. Alguns sao, inclusive, bem inspiradores. Acionam sentimentos e desencadeiam acoes diferentes naqueles que passam.

Em um momento de solidao. Quem mandou viajar só?

Com Sophia (Inglaterra). Melhor nao passar por essa.

Nos próximos posts, um pouquinho mais dos aprendizados. A comida, os costumes e os (deliciosos) falsos cognatos que encontrei por aqui. De toda forma, a Colombia já é minha casa para os próximos vinte dias. E uma casa com uma bela janela.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Episódio 1: ¡A La Orden! (Bogotá)

Parece que é sempre assim. Voce quer por o pé na estrada de novo, encontra tempo e dinheiro, escolhe um destino, busca uma ou outra informacao, faz alguns planos, arruma a mochila e pronto. Aí chega ao aeroporto, espera duas (ou várias) horas para embarcar.

E aí a comissária de bordo, pelo rádio do aviao, diz o nome do seu destino. Entao vem um frio na barriga e o pensamento, já nada inédito: o que eu estou fazendo? Nesse momento é tudo que voce tem: esse pensamento incessante. E está sozinho.

O que é estranho - ou já seria de se esperar? - é que essa sensacao é fantástica. Viciante. Como nicotina.

Bogotá me recebeu com uma chuva fininha e muito frio - cerca de 8, 10 graus. Passando pela imigracao, alfandega e casa de cambio, dois tracos ja me chamaram a atencao - o sorriso colombiano, que mistura uma docura bem latente por essas bandas a boa educacao, outra característica marcante. No táxi, uma conversa muito boa com o motorista, que falava sobre política e me dava boas dicas de viagem. No hostel, a mesma amabilidade, um dormitório aconchegante e vários sorrisos de todos os lugares do mundo.

Finalmente, a Colombia.

Bogotá parece ter seu próprio magnetismo. Além da bela arquitetura do bairro La Candelaria - centro histórico da cidade - já me impressionaram as cores, o clima charmosamente frio e as montanhas dos Andes, sempre visíveis de qualquer ponto da cidade. A comida é saborosíssima, com muitos pratos a base de milho e arroz, com doce de leite, queijo e chocolate da melhor qualidade. E o café... bom, a fama poupa comentários.

Bogotá e os Andes.

Já fiz bons amigos por aqui. Amigos que, inclusive, já me levaram para dancar salsa, reggaeton e nueva cumbia (uma versao moderna da cumbia tradicional, com uma batida bem dancante e alguns samples bem contemporaneos).

Petros (Brasil), Scott (EUA), Sophia (Inglaterra) e Marcos (Brasil)

O DJ...

...e a salsa. O movimento é rápido demais para que a camera acompanhe.

É maravilhoso estar de volta a estrada. Por enquanto, deixo voces com um pouco de nueva cumbia. Até porque, até o fim de janeiro, já diz a cancao: me quedo en mi Colombia a bailar la cumbia. Que no me esperen en el aeropuerto los perros ni los policias!

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

2ª TEMPORADA: COLÔMBIA

Já se vão dois anos. Do retorno de La Paz em fevereiro de 2008, muita coisa mudou. Alguns caminhos se fecharam, outros se abriram e até algumas estradas, que se pensavam deixadas para trás, serão revisitadas.

Da decolagem de La Paz, que misturava a ansiedade do retorno à tristeza do fim de uma jornada, ficou uma coisa: o desejo de por o pé na estrada.

O destino de 2011: Colômbia. Os cenários diversificados, os elogios nunca poupados dos mochileiros que passaram por lá e uma saudade irremediável dos Andes me levaram à escolha. A América do Sul é grande, diversa, apaixonante. Hora de conhecer mais uma de suas tantas faces.

No trajeto, a capital Bogotá, a eterna primavera de Medellín, o vigor histórico de Cartagena de las Índias e a ilha caribenha de San Andrés. A princípio, faço todos os trechos aéreos - como são apenas 22 dias, preferi não fazer as mais demoradas (ainda que prazerosas) viagens de ônibus, já que algumas delas são bem longas.


Na mochila: as roupas necessárias, kit de higiene pessoal e primeiros socorros, um volume das "Aventuras de Tom Sawyer" de Mark Twain, uma antologia de bolso da literatura fantástica argentina, um ipod com canções para embalar os momentos de solidão, câmera fotográfica e um caderninho para registrar as minhas impressões. E, claro, minhas botas. Que seriam de meus passos sem elas!

No coração: a certeza de que viajar é conhecer e aprender com o corpo. É viver sem vírgulas.

Próximo destino, Bogotá. Embarque imediato.