quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Episódio 13: La Paz (Bolívia)

E depois de uma longa odisséia no ônibus que vinha de Copacabana, cheguei a La Paz. Sao como três horas de subida pouco íngreme mas constante, e de repente avistamos a cidade no meio de um vale de montanhas nevadas. Uma visao pitoresca: 80% da cidade parece uma favela brasileira, com as casas de tijolo cru sem tinta. Parece, mas nao é - eventualmente descobri que a tinta é muito cara aqui e acaba sendo usada só por famílias mais abastadas e edifícios públicos. No centro, prédios típicos de qualquer cidade grande sulamericana. Enfim, era de encher os olhos.

From La Paz

A chegada a La Paz.

Mas eu ainda nao havia chegado a La Paz. Ou melhor, havia, mas logo conheci outro aspecto da cidade: o transito. Era quarta-feira, seis horas da tarde, hora do rush. E foi entao que eu presenciei o transito mais caótico que esses olhos já viram! Carros velhos por todos os lados. Centenas de colectivos (vans que fazem o transporte público) e ônibus da década de 40, se nao de antes. Milhares de táxis - alguns eram Toyota com a direçao do lado direito, como no Japao! Uma loucura. E todos buzinando. Aqui em La Paz se buzina para qualquer coisa que se mova - carros, onibus, pessoas, pombos - ou para qualquer coisa que nao se mova também. Ou seja, é um buzinaço infernal.

From La Paz


O Daan e eu chegamos, fizemos o check-in no Wild Rover, um hostel irlandês que com certeza vai entrar para a história como hostel mais insano de toda a viagem, e tomamos a primeira Paceña (cerveja daqui). No dia seguinte, fomos à Plaza Murillo, lugar onde fica a sede do governo. Eu precisava dar um alô pro companheiro Evo Morales, entao fui direto para lá. E nunca vi tantos pombos na minha vida. Por todo lado, as cholas (mulheres bolivianos que vestem trajes típicos) vendem milho para que eles venham em sua direçao. O Dann, nessa hora, parecia menino pequeno com brinquedo novo.

From La Paz


Os pombos na Plaza Murillo.

From La Paz


E o meu alô pro Evo!

Depois da visita à sede do governo, almuerzo. E tudo o que encontramos era pollo frito com batatas fritas, arroz, catchup, maionese e ají (molho de pimenta bem forte). Tudo vem num bandeijao e voce come com as maos. Foi ótimo. Comemos em um bandeijao cheio de bolivianos por Bs. 10 (3 reais) e saímos do cirtuito gringo que existe por aqui.

Mas uma parte imperdível do circuito gringo é a Calle de las Brujas. Ali, bruxas vendem todo tipo de sortilégio e estranheza que voce possa imaginar. Pozinhos mágicos para matar, causar divórcios, apaixonar, ficar rico ou empobrecer alguém. Folhas de todos os tipos. Artesanatos de cactus. Pó de San Pedro (também chamado piote), alucinógeno extraído dos cactus que faz o mundo ficar mais colorido e as coisas ganharem movimento. E o mais incrível de tudo: fetos de llama. Perguntei o preço de um, mas custava Bs. 250. Fica para a próxima.

From La Paz


Detalhe para os fetos de llama à esquerda.

From La Paz


Chola caminhando na Calle de las Brujas.

Também está em La Paz o Presídio de San Pedro (parece que tudo que o santo abençoou aqui tem caráter duvidoso). E é esse o lugar mais tragicômico de La Paz. Os "afortunados" que sao mandados para lá tem que pagar por suas celas. Pagam pelas celas, pagam pela sua comida. Se nao tiverem dinheiro, sao mortos ou colocados em um bueiro qualquer. Contudo, os que pagam podem viver com suas famílias e crianças lá dentro. Podem ainda trabalhar na fábrica de cocaína que funciona ali dentro. E para quem eles vendem? Para os turistas. Está aí o lado mais absurdo de San Pedro. Você pode visitar a prisao, passar por todos os pavilhoes (menos dois, onde estao os mais perigosos bolivianos - nem a polícia entra ali), conhecer as famílias que vivem ali e - pasmem - dormir uma noite lá. Eu tive medo de ir, mas quando juntamos um grupo de 10, criei coragem. Fomos à praça na frente do presídio e, depois de 30 segundos, um ex-presidiário nos ofereceu um tour pela prisao. Perguntei o preço: Bs. 300 (cerca de R$100,00). Questionei o preço absurdo e ele me explicou: Eram Bs. 50 para ele e Bs. 250 de suborno aos policiais, para que nós entrássemos. De bonus, voce ganha um papelote de cocaína. O tour é ilegal, mas todo mundo faz. Eu nao fiz. Desisti, já que nao queria molhar a mao da polícia para dar suporte e continuidade a uma situaçao absurda e totalmente corrupta. Os outros nove foram, e voltaram completamente abismados. Enquanto estavam lá, fui a um restaurante e sentei lado a lado com dois policiais que levavam dois presos para comer fora. Uma loucura.

Cocaína aqui em La Paz é fácil. Se a sua cocaína da prisao acabar ou se voce nao quiser comprar das trezentas pessoas que te vendem nas ruas, voce pode pegar um táxi e pedir que ele te leve ao bar Route 66. É um bar, mas o protagonista do menu é o pó. Ainda bem que eu nao gosto. Seria mais um gasto extra, ainda por cima!

From La Paz


O Monte Illimani, visível de muitas esquinas paceñas.

Depois de ter conhecido isso tudo, descobri que o melhor a se fazer em La Paz é simplesmente perambular pela cidade. Em trinta minutos de caminhada, vi uma briga de 50 crianças de colégio (e entrei em panico quando eles vieram na minha direçao), vi um policial tentando acordar um bebado com um balde de água cheia de gelo (e nao consegui conter a gargalhada), tive dor de barriga de tanto rir da loucura do transito, quase fui atropelado umas cinco vezes e ainda fiz uma comprinha com o dinheiro que tinha sobrado da viagem. Ao caminhar pela avenida principal, vi a La Paz dos ricos - Burger King, restaurantes chiquetésimos, sorveterias requintadas, bancos, grandes empresas, agências de viagens e tudo mais. Tudo isso frequentado por cholas, meninos com uniformes de escolas (e meninas de saia rodada), homens engravatados e toda sorte de gente que se possa imaginar.

From La Paz


Vista do mercado de La Paz.

E por sete dias eu perambulei em La Paz tentando pensar em uma forma de voltar ao Brasil. Como tinha que estar em BH no dia 2 de março, comecei a pensar em possibilidades. Depois de descobrir que para chegar por terra seriam quase 6 dias de viagem (Onibus-onibus-trem-onibus-onibus) sem parar, resolvi gastar os últimos centavinhos de dólar em um voo para o Brasil. E é por isso que ho,e dia 25 de fevereiro, é o meu último dia de mochilao. Daqui a duas horas embarco no aeroporto de La Paz com destino a BH, mas paradas indesejáveis em Cochabamba, Santa Cruz de la Sierra, Campo Grande e Sao Paulo. Chego amanha.

O que eu posso dizer é que, em exatos 60 dias de viagem, alcancei muito mais do que almejava.

Aprendi que viajar só é uma forma encantadora de abrir os braços ao mundo e às chances.
Aprendi a dividir quarto, por dois meses, com completos desconhecidos.
Aprendi a comprar papel higiênico, sabonete e pasta de dentes com antecedencia.
Aprendi a puxar papo com a senhora de aparencia humilde que dividia o assento do onibus comigo.
Aprendi o poder das linhas fronteiriças, que separam e às vezes rivalizam o povo latino-americano, que tem tanto em comum.
Aprendi a me virar em um lugar de cuja língua ou moeda eu tenho uma vaga noçao.
Aprendi o desapego necessário para engolir o choro na hora de se despedir de uma pessoa que, provavelmente, eu nunca mais verei.
Aprendi a coragem necessária para nao engolir o choro quando via algumas das coisas mais lindas que já vi.
Aprendi a agradecer a tudo, a todos, a Deus e a todo o universo por estar ali, naquele lugar, naquele momento.
Aprendi a confiar no acaso e deixar os planos de lado.
Aprendi que as pessoas mais interessantes sao as que nao sabem o que fazer da vida.
Aprendi que estabilidade nem sempre é sinônimo de felicidade.
Aprendi que as escolhas mais óbvias nem sempre sao as mais sábias - ou as mais divertidas.
Aprendi o delicioso gosto da irresponsabilidade.
Aprendi que os latino-americanos sao diferentes, têm ginga na cintura e uma amabilidade que nao se encontra em qualquer lugar.
Aprendi que culturas diferentes podem impor barreiras intransponíveis a qualquer forma de comunicaçao.
E por fim, aprendi que o mundo é muito maior do que a gente pensa. E que para sair da casquinha que a gente tem a ilusao de nos prender, basta coragem. O resto vem com o tempo.

A todos, muito obrigado por acompanhar o blog, por ter me dado todo o suporte que eu precisava nos momentos mais maravilhosos e mais difíceis desses dois meses. A América do Sul é maravilhosa, mas fica ainda mais linda quando a gente pensa em quem está em casa, esperando que a gente volte cheio de histórias. E eu estou voltando.

O blog continua por aqui. A próxima viagem é só uma questao de tempo (e, principalmente, dinheiro). Mas vai acontecer. Um dia descubro para onde.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Episódio 12: O Carnaval de Oruro (Bolívia)

Logo depois de sair do Lago Titicaca, tomamos um ônibus para La Paz. A viagem de ônibus foi uma piada - os ônibus nao tem banheiro, e as pessoas gritam "baño!" para que o motorista pare o ônibus e eles desçam. O mais engraçado é que nao há muita discriçao: um dos indivíduos desceu do onibus, colocou o órgao para fora e mijou NO ONIBUS. Bem diferente. Além disso, a toda hora tínhamos que descer do onibus e empurrar para que ele pegasse de novo, ou entao para cruzar o Titicaca numa balsa duvidosa, enquanto o onibus cruzava o lago numas tábuas de madeira. Enfim, chegamos a La Paz. Mas sobre La Paz eu falo depois. Passamos três dias aqui e na sexta-feira à tarde fomos para Oruro. Fico em La Paz até a próxima quarta, quando vôo de volta para o Brasil.

Oruro fica a cerca de três horas de La Paz, dependendo da disposiçao do motorista e da quantidade de paradas para o banheiro. A cidade é famosa por ter o melhor carnaval da Bolívia - que tenho que dizer é tao bom quanto ou ainda melhor que o brasileiro. Compramos um pacote de duas noites em um albergue com camas e banho quente (que na verdade era uma escola com colchoes de palha e ducha gelada), comida e transporte a Oruro e de volta a La Paz incluídos. Tenho aversao por pacotes, mas foi a única forma possível de conseguir alojamento na cidade, que tem 300.000 habitantes e recebe 3 milhoes de pessoas no carnaval. No fim das contas, foi um ótimo negócio: nosso ônibus estava cheio de bolivianos e tivemos uma oportunidade fantástica de estar imersos em sua cultura. E eu, como brasileiro, tenho que dizer que fui tratado como rei. Todos me chamavam de "hermano" e faziam das tripas coraçao para que eu estivesse o mais feliz possível. Conseguiram. Povo formidável esse.

Chegamos na sexta à noite e nos deparamos com um carnaval exatamente igual aos das cidades mineiras, com ruas tomadas de gente e música por todos os lados. Mas nada de samba - música tradicional e folclórica boliviana, e pessoas indo à loucura! Está aí um dos aspectos mais lindos e invejáveis da Bolívia: o orgulho nacional que o povo tem e a forma em que as tradiçoes se conservam, e sao sempre observadas por jovens e adultos. Dançamos, bebemos, nos divertimos e fomos logo para a escola, já que no dia seguinte a festa começava cedo.

E que festa. Acordamos, lavamos o rosto (nada de banho) e fomos para a Avenida Principal. Quilômetros de arquibancadas bem simples e artesanais cobriam os dois lados da Avenida. Nos entornos, cholas e crianças vendendo todo tipo de coisas, incluindo capas de chuva. "Mas nao vai chover, pensei". Logo entendi: a tradiçao por aqui é de jogar baloes d'água e espuma em tudo em todos no Carnaval. Num dos países mais frios do continente (de dia em Oruro fazia como 18 graus). Nao tem jeito de ficar seco: os baloes d'água voam por todos os lados, e todo mundo sorri e leva na esportiva. Entao, sao tres opçoes: a) molhe-se e sorria! b) fique em casa! c) entre na guerra. Escolhi a opçao C e me juntei aos bolivianos que estavam conosco: compramos mais de 100 "globos" (assim eles chamam os baloes d'água) e a guerra começou. Nunca me diverti tanto.

Esse é apenas um pedacinho do carnaval. O mais lindo que Oruro oferece sao as paradas: milhares de pessoas se caracterizam nas mais lindas fantasias, se divindo entre Diabos, Vedetes, Cholas, Ursos, Sambos (Antigos chicoteadores de escravos) e Índios de todos os tipos. Sao mais de 20 horas de parada, e há grupos de todos os cantos da Bolívia. As pessoas vibram com as cançoes folclóricas bolivianos, e nos intervalos um grupo Paceño de Música Afro enlouquece a todos com temas levados por vários tambores. E foi assim, vendo uma das festas mais lindas da minha vida, que eu enlouqueci também, gritei, chorei e morri de rir. O arrepio era inevitável quando La Diablada passava, com lindas coreografias e fantasias deslumbrantes.

E um belo tapa sem luvas no Brasil: nada de putaria, pouco ou nenhum erotismo. O mais erótico que há sao as saias curtas das vedetes. Quando elas passam, o publico grita "Beso! Beso!" e enlouquece quando uma delas atende ao seu pedido, mandando um beijinho. Nada de drogas. Poucas pessoas escornadas na rua de tanto beber (eu quase fui uma delas, já que os bolivianos nao paravam de me dar latinhas de cerveja). Crianças e senhoras de idade por todos os lados até a alta madrugada, dançando e se emocionando com as paradas. Enfim: uma festa limpa, tranquila e invejável. Oruro tem, com certeza, o Carnaval mais lindo que eu já vi e uma das festas mais brilhantes do continente. O que tenho a dizer: nao morram sem passar um Carnaval ali. Eu passei e, com certeza, volto.

A única má notícia: nada de fotos. Por medo de que minha câmera molhasse e eu perdesse as fotos de toda a viagem, nao a levei. Coloco algumas fotos dos jornais locais aqui e, assim que o pessoal que estava comigo subir as fotos, ponho-nas aqui.



"La Diablada", linda parada que encara o mal e o transforma em alegoria.



Vedetes e Sambos em uma parada mista.

Cheguei ontem (domingo) a La Paz, e fico aqui até a quarta, quando vôo de volta ao Brasil. Na quarta, o capítulo último de El Mochilón: a cidade mais eufórica da Bolívia.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Episódio 11: O Lago Titicaca (Perú/Bolívia)

No sábado, acordei no albergue em Cusco e me encontrei com o Dann, um holandês que fez a trilha até Machu Picchu comigo. Comentei que tinha que ir comprar a minha passagem para Puno e ele disse "Você vai pra Bolívia? Ah, entao eu vou também". Como nessa viagem aprendi a amar pessoas irremediavelmente irresponsáveis, vibrei e logo nós fomos ao terminal de ônibus de Cusco para comprar a passagem. Chegando lá, quase caímos para trás. Quinhentas agências diferentes com quinhentos agentes gritando "Arequipa! Lima! Puno! Ica! Máncora!". Escolhi o menos simpático e perguntei quanto sairia a passagem para Puno. Comecou em 60 Soles em um onibus convencional. A negociacao fechou em 30 Soles em um onibus leito.

Na noite seguinte, pegamos o onibus, que saiu pontualmente atrasado em 40 minutos do terminal de Cusco (normal no Perú!). Nem deu tempo de bater papo: capotamos. Acordamos com um sobressalto, às 4h da manha - Roberto Carlos tocando na maior altura e luzes do onibus acesas. O motorista gritava: "Puno! Punto final! Baja! Baja! Baja!". Credo. Descemos no escuro, no maior gelo do mundo e foi aí que entendemos... "Fodeu!". Nao há mais nada o que pensar quando se chega num terminal rodoviário de uma cidade duvidosa a essa hora. Nossa reacao: sair de lá o mais rápido possível e pegar o próximo onibus para Copacabana, na Bolívia.

Pegamos o onibus às 7h (que na verdade saiu às 7h50), dormimos, acordamos, fizemos todos os tramites das fronteiras e chegamos em Copacabana. Copacabana fica do outro lado do lago Titicaca (nao mais o lago mais alto do mundo, mas o segundo mais alto do mundo, a 3870m de altitude). O lago é enorme e, ainda que rodeado por montanhas, em alguns momentos guia o olhar até o horizonte.

From Isla Del Sol


Vendo a cidade boliviana, que é simpática mas nao tao atrativa (e como queriamos ficar só uma noite por aquelas bandas), compramos logo o ingresso do barco para Isla del Sol. Fui sacar dinheiro no caixa e... BEM VINDO À BOLÍVIA! Nada de caixas automáticos em Copacabana. Só um banco que funciona aos Sábados e Domingos (era Segunda-feira). E, quando fui pegar os meus dólares de emergência, percebi que havia sido roubado no Perú. Algum espertinho tirou duas notas de 50 dólares do meu moneybelt e trocou por duas notas falsas. E isso foi em Arequipa, há semanas atrás. Melhor nem falar disso. Dinheiro vai, dinheiro vem, e o barco já vai sair.

Nada melhor para curar a minha ira do que o azul do Lago Titicaca. Foram duas horas em um barquinho vai-nao-vai atolado de gente para chegar até a Isla del Sol, ilha que os incas acreditavam ter sido o berco do Deus Sol. E quando chegamos, vimos o porquê. As rochas amareladas e a vegetacao rasteira conferem à ilha um visual meio mediterraneo, meio onírico. Linda, linda, linda - e, com certeza, um dos lugares mais poéticos em que já pude estar. A vida ali é devagar: as cholitas, típicas bolivianas vestidas de saia rodada, chale, longas trancas no cabelo lisinho e um chapéu de côco na cabeca, tecem capuzes, luvas e meias e conversam em aymará. Falam baixinho, sao tímidas e retraídas. Nem aquelas que sao donas de pousada ou restaurante dao muita conversa a turistas. De fato, a Bolivia é outro mundo. Mas um mundo maravilhoso de conhecer.

From Isla Del Sol


Dormir uma noite na Ilha foi restaurador. Meu cansaco é mais que visível depois de quase dois meses na estrada. A agitacao de Cusco, entao, cedeu lugar à tranquilidade de um sono que comecou às 21h. O silencio da Ilha foi reconfortante, e uma energia especialmente tranquila estava ao nosso redor. Nunca dormi tao bem.

From Isla Del Sol


O Porto na Isla Del Sol. Ao fundo, nao sao só nuvens: sao montanhas nevadas, que compoe a paisagem embasbacante do lago.

From Isla Del Sol


Acordamos, tomamos um café mais-ou-menos (saudades do café brasileiro...), pegamos o barco de volta a Copacabana e, por fim, chegamos ao "terminal" para pegarmos o ônibus para La Paz. A foto justifica as aspas:

From Isla Del Sol


Sobre La Paz eu falo depois (ainda tenho mais alguns dias na louca capital boliviana). Sobre a Isla Del Sol... nunca me senti tao pleno e tao feliz em um lugar rodeado de azul, silencio e simplicidade.

PS: Evidente no Titicaca é a cicatriz que a Guerra do Pacífico, em que o Chile tomou Antofagasta e o litoral do Pacífico da Bolívia, deixou. Nas várias sedes da Marinha Boliviana (que na verdade só fica no lago), vê-se referencias nítidas à Guerra. Dêem uma olhada nessa:

From Isla Del Sol

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Episódio 10: Cusco, Salkantay, Machu Picchu

Já justifico a ausência e a demora a postar: em parte, falta de cybercafés decentes por perto; em parte, cansaço extremo. Mas estou de volta!

Johnny, Claire e eu chegamos a Cusco bem cedinho, como às 6 da manha, depois de uma noite complicada em um onibus leito de quinta categoria com uma mulher que sofria de flatulências gravíssimas. Logo que chegamos, já detectamos três coisas: o frio bem mais pungente que o de Arequipa, a beleza das montanhas em volta da cidade (que fica num vale, chamado Valle Sagrado) e, por fim, a quantidade de gente te oferecendo tours a Macchu Picchu (foram mais de 10 nos primeiros 5 minutos depois de descer do ônibus).

From Cusco


Tomamos um taxi para o albergue e, claro, o taxista nos disse que o seu irmao seria o melhor guia possivel para Macchu Picchu. Deixamos para lá, fizemos o Check In às 7 da manha e nos deparamos com um bando de gente acordada na recepçao. Alguns iam sair para Machu Picchu. Outros haviam acabado de chegar da noitada. De qualquer forma, sao dois os aspectos principais de Cusco: o primeiro, o cultural-turístico, que é irresistível. Por S/.70,00 voce pode comprar um boleto turístico para estudantes e visitar as ruínas do Valle Sagrado e uma porçao de monumentos e museus em Cusco. O segundo, o da badalaçao e agito, é igualmente irresitível - Meca sulamericana de turistas, Cusco oferece as melhores noitadas a preços sensivelmente módicos. Voce pode se surpreender numa das grandes boates de Cusco, bebendo drinks duvidosos grátis e dançando salsa, samba, cumbia, heavy metal (?) e eletrônica numa fraçao de 20 minutos. Incrível. O lado negativo disso tudo é a quantidade de droga que rola por aqui. As pessoas te oferecem cocaína a todo momento nas ruas. Acho que eu conheci uns 5 mochileiros que nao entraram no pó. Relaxem, eu sou um deles.

From Cusco

James e eu na Plaza de Armas.

A arquitetura da cidade é fantástica - ex capital do Império Inca, Cusco ainda mantém traços da arquitetura inca, com seus muros perfeitamente erguidos com inclinaçao trapezóide e pedras perfeitamente encaixadas. Por cima desses muros, as casas com arquitetura colonial. Por ser localizada em um vale, a cidade é completamente cheia de ladeiras (voces nao têm idéia do que é subir uma escadaria de 150 degraus para chegar ao hostel a 3.300m de altitude - é por isso que eles oferecem chá de coca logo na recepçao).

From Cusco

Abaixo, o muro dos incas. Acima, o dos incapazes.

Outra coisa que chama a atençao é a quantidade de coisas que te oferecem na rua. Cocaína, massagens, tours para Machu Picchu, almoços econômicos, drinks, água, equipamento de camping, câmbio, etc. Nao existe uma loja específica em Cusco: todas fazem absolutamente TUDO.

From Cusco


O hostel foi um capítulo à parte: Loki Hostel, administrado por ingleses, foi um espetáculo. As camas mais confortáveis até agora, inúmeros banheiros e chuveiros, um café da manha maravilhoso (tinha até Irish Breakfast com linguiça e bacon para quem estivesse de ressaca), um bar com preços excelentes e ótima música tocando e... redes! Ontem mesmo foi dia dos namorados aqui e teve uma super festa com mil eventos românticos, fora os filmes românticos no cinema do hostel o dia inteiro. Tudo isso por S/.21,00 por dia. Sensacional. No hostel eu conheci o James, um sulafricano bacanérrimo, tranquilo e divertido, que acabou se tornando um grande amigo em questao de horas. E fomos eu, James, Claire e Johnny comprar o tour para Macchu Picchu via Salkantay - uma caminhada de 5 dias e quatro noites que entraria na história. Depois de 6 horas de barganha e pesquisa, reduzimos o preço pela metade e no domingo, às 4 horas da manha, pegamos o onibus em direçao a Molleypata.

Sobre o tour até Macchu Picchu:

DIA 1: Dormimos no onibus até Molleypata. Depois de muitos despenhadeiros, curvas desastradas e experiências de quase-morte, chegamos à cidadezinha. Conhecemos o Wilson, o nosso guia, e os outros 11 companheiros de caminhada. Demos graças a Deus que o nosso grupo era composto de holandeses, belgas, irlandeses (6!) e ingleses. O outro grupo era só de americanos superficiais, desrespeitosos e burros (e voces nao tem noçao do quanto um americano pode vir a te irritar numa viagem dessas). Depois do café da manha, começamos a caminhada bem tímidos. Saímos da cidade e já nos deparamos com os Andes. A caminhada parecia reta, mas era uma subida bem sutil. Depois de uma parada para o almoço e 9 horas de caminhada, nao acreditamos quando avistamos Salkantay, o glaciar completamente nevado durante todo o ano, jamais escalado ou tocado por pés humanos por ser perigosamente íngreme. E, no meio de um vale rodeado por montanhas geladas e cortado por um rio, armamos acampamento. O gelo de -5o. nos obrigou a usar todo tipo de agasalho disponível e a tomar rum puro para esquentar. Depois de uma rodada de baralho, despencamos na barraca, cansados. No dia seguinte, acordaríamos às 5 da manha.

From Salkantay, Machu picchu

Salkantay.

DIA 2: O dia começou com uma xícara de chá de coca - o corpo tende a reagir pior à altitude de 4.800m durante a noite ou de manha cedinho. Tomamos café e partimos para uma caminhada cuja dificuldade nao imaginávamos. Durante 6 horas, subimos, subimos, subimos, subimos. A altitude castigava, o ar era difícil de puxar, o frio nos fazia doer cada parte do corpo, especialmente quando o suor começava a sair. Exausto, apelei para as folhas de coca: voce arranca o caule, dobra as folhas e coloca entre a bochecha e os dentes. O efeito é imediato: voce sente menos cansaço, consegue respirar melhor e tem disposiçao para seguir em frente. Nao é droga: a folha é usada medicinalmente aqui. Sem ela, ninguém daria conta de viver nas alturas. Quando pensei que tudo estava bem, veio a chuva. E nao havia anorak, capa ou poncho que a parasse. Ficamos ensopados no topo da montanha. A voz mal saía. As maos nao conseguiam segurar o cajado de caminhada. Os pés escorregavam na lama. O corpo inteiro tremia. A única saída era seguir em frente e descer dali o mais rápido possível. Depois do almoço (e da tentativa fracassada de fogueira que tentamos fazer), descemos. E aí, a paisagem mudou. Dos Andes congelados para os Andes selvagens. Era como sair da Groelandia e chegar na Amazonia em questao de horas. A temperatura subiu mais de 20 graus, a selva fechou à nossa volta e a vista era prazeirosa. O único porém era a lama, que chegava até os joelhos em certas ocasioes. Depois de 13 horas caminhando, chegamos ao segundo acampamento - no meio da lama.

From Salkantay, Machu picchu

A turma da trilha. A montanha que subiríamos está ao fundo, encoberta por uma nuvem.

DIA 3: Dia de caminhada na selva. Subidas, descidas, lama, lama, lama, lama, tudo no meio da selva peruana. Muita água por todo lado, já que a neve dos Andes derretia. Cruzamos córregos, cachoeiras e rios mais de vinte vezes. Algumas vezes era tao raso que as pedrinhas nos protegiam da água. Outras vezes passávamos em simpáticas pontes que faziam da caminhada um prazer. Mas na maioria das vezes passávamos por pinguelas do tipo "um passo em falso e seu corpo vai parar do outro lado do continente". Foi aterrorizante, mas com o tempo nos acostumávamos. E quando já estávamos tranquilos, veio a notícia: a ponte sobre o maior rio da regiao havia caído. E nessa hora, imagens falam mais que mil palavras.

From Salkantay, Machu picchu

Na foto, a Jackie, irlandesa, está cruzando o rio. Eram duas cordas de cada lado e uma corda amarrada à nossa cintura. Um nativo nos puxava com toda a força possível do outro lado do rio. Nós lutávamos contra a correnteza que, por pouco, nao levou a Sarah (também irlandesa) e o nosso guia. Foi dramático, principalmente quando vimos que todo mundo tinha descido da próxima cidade, La Playa, para assistir a nossa passagem. Mas confesso que, depois de ter sobrevivido, adorei. Fiquei até com vontade de cruzar o rio de novo. O único porém foi que TUDO molhou. Minhas meias, botas, calças, cuecas, roupas e, o pior, o meu saco de dormir. Por conta disso, tive que dormir duas noites em um saco de dormir ensopado. Nao gripei por intervençao divina. À noite, nao teve festa, nem nada. Dormimos.

DIA 4 - Aniversário do James! O problema é que ninguém tinha ânimo para comemorar. Estávamos acabados fisicamente. A Jackie mal conseguia andar pela dor na cintura. Meus pés estavam cheio de bolhas e machucados por conta da meia molhada. A Claire tinha bolhas por toda a perna. Psicologicamente, pior ainda. Uma noite mal dormida num saco de dormir ensopado pode ser desastrosa.

Dois dias antes, fizemos uma opçao alternativa para o nosso roteiro. Em vez de visitar as águas termais, resolvemos mudar a rota e passar em um sítio arqueológico inca no alto de uma montanha. Trocamos o conforto de uma piscina de água quente por uma experiëncia histórica. Alguns de nós se arrependeriam mais tarde. Foi esse, no fim das contas, o dia mais difícil de toda a trilha. Foram 6 horas subindo uma montanha numa trilha absolutamente fechada - entre mato e precipício - e escorregadia devido à lama. Cair no chao nao tinha mais graça: um tombo mais desastrado poderia ser um baita GAME OVER. Chegar ao topo foi quase impossível, já que, além de tudo, as mulas que carregavam nossas mochilas nao chegavam até lá. Tivemos que carregá-las. O premio, ao chegar ao topo, eram as ruínas de uma pequena vila inca - tudo quase virgem, por ter esse sítio sido descoberto há pouco tempo, além de dificuldade de acesso. Para a nossa surpresa, do outro lado do vale podíamos avistar Macchu Picchu e Wayna Picchu, a montanha imponente logo ao lado da cidade perdida dos incas. Descer foi o mais difícil: descemos mais de 600m de altura em um caminho em zig-zag, novamente entre mato e precipício, cheio de lama. Eu escorreguei e caí umas cinco vezes, e em algumas delas por pouco nao caí montanha abaixo. HARDCORE era a única palavra que tínhamos para a trilha. Em alguns momentos, choramos, com medo de nao conseguir. Os joelhos nao aguentavam segurar o peso do corpo contra o precipício. Teve gente que foi se arrastando na lama para poupar o esforço. O almoço foi 10 horas depois do café da manha. E depois, teríamos mais 3 horas de caminhada até Águas Calientes, a cidadezinha-abrigo para quem vai a Machu Picchu. Levantei a bandeirinha branca e, junto com metade do grupo, pegamos um trem até lá. E chegamos à cidade mais artificial que eu já vi na minha vida: Águas Calientes nao parece de verdade. Tudo é muito novinho, "pra turista ver". Os cardápios sao, na maioria, em ingles. E as estátuas incas no meio da praça central sao as coisas mais kitsch que eu já vi nesses 24 anos razoavelmente bem vividos. À noite, o último jantar e, depois de 3 dias dormindo em barracas congelantes, fomos brindados com uma cama em um hostel e o primeiro banho em quatro dias. Valeu. No dia seguinte, acordaríamos às 4h para marchar em direçao a Machu Picchu.

From Salkantay, Machu picchu

Machu Picchu ao fundo. A aparencia de 50 anos de idade é puro cansaço.

DIA 5: Era o grande dia. Acordamos às 4 da manha e imediatamente começamos a caminhada rumo a Machu Picchu. Chovia e estávamos no meio do breu. Depois de 15 minutos, nos deparamos com uma escadaria. E começamos a subir. Subir. Subir. Subir. Os degraus nao acabavam, e estávamos todos em silencio, tentando manter um ritmo rápido de subida, antes que a exaustao viesse. Me emocionei - eu estava chegando. Depois de quase 2 meses de viagem, 4 dias de caminhada em condiçoes muitas vezes frágeis, eu estava subindo os degraus rumo a Machu Picchu. As lágrimas começavam a descer e eu logo vi que nao era o único. Era uma mistura de cansaço extremo, falta de ar e emoçao. E entao, às 5:55 da manha, chegamos a Machu Picchu.

From Salkantay, Machu picchu


From Salkantay, Machu picchu


From Salkantay, Machu picchu


Viram as fotos? Odeio decepcioná-los: Machu Picchu está longe de ser um sonho. Bem longe. Na verdade, Machu Picchu foi, para mim, a maior decepçao de toda a viagem. Por horas ali eu lutei contra o que estava se passando na minha cabeça, mas, infelizmente, foi essa a conclusao a que cheguei. Explico:

Subimos uma escadaria durante 1 hora e meia para chegarmos às ruínas e termos acesso a Wayna Picchu (só as 400 primeiras pessoas podem subir a montanha). 5 minutos depois de chegarmos, 10 microônibus lotados de turistas americanos e japoneses, em sua maioria, chegaram ao parque. Eles se amontoavam na fila para Wayna Picchu segurando as suas câmeras fotográficas e garrafas d'água. Na recepçao, tomamos consciencia do preço quase proibitivo de 130 Soles para a entrada. Acabou que perdemos o melhor horário para Wayna Picchu, o das 10h, e subimos às 7h, quando tudo está envolto em neblina. Depois de subirmos à montanha e descermos, era a hora do tour pelas ruínas. E entao descobrimos que Machu Picchu possivelmente teria sido um centro de treinamento para a realeza inca, descoberto pelo americano Hiran Bingham em 1912. E o "templo do sol", "templo da água", "banheiro da família real" e todas as outras ruínas nao passavam de SUPOSIÇOES feitas pelo yankee quando chegou até lá.

Chegou lá e deixou seu legado. Em Machu Picchu, tudo é estranhamente limpo e polido. Incomum para ruínas. As casinhas têm telhadinho de palha perfeitamente conservados. E algumas delas estavam cobertas por plásticos. Haviam homens dentro delas dando marteladas. Foi vendo isso que fiz uma pergunta ao guia e obtive uma resposta decepcionante: apenas 40% de Machu Picchu sao ruínas. Os outros 60% sao construçoes modernas. E esses 60% incluem os degraus que me emocionaram na subida. Haviam sido construídos em 1993. Entre as "rochas incas perfeitamente colocadas", há cimento. As reconstruçoes mais antigas sao ridiculamente óbvias. As mais novas nao sao. O pessoal anda se aperfeiçoando na arquitetura inca. De qualquer forma, nem reconstruçoes elas sao - sao consrtuçoes sobre SUPOSIÇAO. Valeu, Hiran Bingham.

Depois do tour, estávamos acabados, depois de 4 noites muito mal dormidas e mais de 40 horas de caminhada. Assentamos na grama. O Dan pegou um pouquinho de atum e colocou em uma bolacha. Foi o suficiente para que um guarda viesse até nós. E ele disse "Este é um lugar sagrado e nao é para pessoas como voces. Aqui nao se assenta à grama ou se come. Fora, todos". E foi assim que eu fui expulso de Machu Picchu. Mas nao bem por essa razao. Logo vimos que quem tinha pedido que o guarda nos expulsasse era um guia que percebeu que estávamos bem na frente da "ruína" que seria a próxima foto das senhoras americanas que ele guiava. E também porque nao éramos o tipo do turista que pagaria 2 dólares por um café no restaurante logo ao lado. Muito menos o tipo que pagaria 1000 dólares para dormir no hotel que fica ao lado da recepçao (e que, por sinal, desviou as águas que compunham as fontes da cidade perdida). Entao, graças a Deus, fomos expulsos de Machu Picchu - ou InkaLândia, já que aquilo mais se parece com uma Disney temática Inca. Daqui a um tempo, quem sabe, eles colocam uma roda-gigante. Só digo uma coisa: PachaMama deve estar IRADA. Um dos exemplos mais belos de arquitetura pré-colombiana do continente virou uma máquina de fazer dinheiro. Que vergonha.

From Salkantay, Machu picchu

Expulsos. Eu nao estou na foto porque fui o unico que teve energia para levantar.

A caminhada foi nota 1000. Machu Picchu foi quase zero. Valeu. Fui lá, vi e tirei minhas conclusoes. Nao volto mais.

Hoje à noite, me despeço do Peru, esse país lindo (fora a InkaLandia) cheio de pessoas adoráveis e cultura riquíssima. Vou para Copacabana - nao a praia, no Rio, mas a cidade Boliviana à beira do Titicaca. Beijos enormes a todos!

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Episódio 9: Arequipa (Perú)

...e entao era novamente hora de arrumar as malas (ou melhor, mochilas) e cruzar a fronteira. Eu, Claire e Johnny saímos do hostel e pegamos um taxi até o "terminal internacional de Arica". Entre aspas porque é um pátio cheio de táxis velhos. Os taxistas juntam à sua volta igual loucos gritando "Tacna! Tacna!". Outros falam "Perú, donde quieras!". Cheguei até a negociar com um taxista, de brincadeira, quanto ele fazia para me levar de táxi até Macchu Pichu (umas 30 horas de viagem). Ele levou a sério e me deu o preço. Vai entender.

Negociei o preço de um táxi: CLP 2.500 para cruzar a fronteira até Tacna (o correspondente a R$10,00) por uma viagem de uma hora e meia. E entao, a surpresa: saímos de Arica ao meio-dia e chegamos em Tacna às 11h30. Nao porque o taxista era rápido, mas porque a diferença de fuso-horário nos deu de regalo duas horinhas preciosas.

Chegando em Tacna, tratamos de comprar as passagens de ônibus para Arequipa. Tacna é cidade de fronteira, bagunçada, nao é um lugar onde voce quer passar uma noite. A passagem era para 12h30, entao tínhamos uma hora para almoçar. Trocamos os Pesos Chilenos por Nuevos Soles e eu fui correr atrás de restaurante. Achei um lugar simples e pedi um prato para vegetariano. Ela me ofereceu arroz, frijoles, huevos y bananas. Tudo isso por S/.3,50 (R$2,50). E entao comi arroz, feijao, ovos e bananas - a refeiçao mais deliciosa em semanas! De cara, pedi uma Cuzqueña (cerveja), e ela foi lá no mercado comprar pra mim por 2 soles. Incrível.

Pegamos o onibus para Arequipa e chegamos à noite, depois de muita subida e muitas curvas. De 40 graus, a temperatura caiu para 15. E nos surpreendemos com uma cidade linda! Arequipa tem construçoes imponentes, casaroes espanhóis que evidenciam a cicatriz da colonizaçao no Perú, e catedrais majestosas. Há um monastério famoso, o de Santa Catalina, que tem ocupa quase dois quarteiroes. A cidade fica à beira de um vulcao lindo, o El Misti, que tem o topo todo nevado. É área de terremotos, mas só a arquitetura histórica que sofre danos - as pessoas nao se incomodam muito. Os edifícios sao todos feitos de pedra vulcanica - o que confere à cidade o nome de Ciudad Blanca. Obviamente, depois da invençao da tinta, ela nao ficou tao blanca assim.

From Arequipa

Arequipa, la ciudad blanca.

From Arequipa

Johnny e Claire em frente à catedral, na Plaza de Armas.

From Arequipa

Assistindo de camarote o que a colonizaçao deixou como cicatriz.

From Arequipa

A cidade é pitoresca por todos os lados.

À noite, junto com o ar gelado, vêm as luzes, que transformam Arequipa em um espetáculo. E junto com as luzes, vêm os bares, boates e restaurantes que te asseguram uma baita ressaca no dia seguinte. SIM! CONSEGUI SAIR DESSA VEZ! E compensei a falta de badalaçao da viagem inteira, por sinal... Teve noite em pub irlandês com 4 irlandeses (happy hour! Dois Pisco Sour por S/.10,00, o correspondente a R$7,00), pizza com vinho, noitada em boite, show de rock clássico (com sotaque castellano) e ceviche. Ceviche. Pois é, depois de me sentir um pouco fraco, achei que um pouquinho de peixe nao faria mal algum. E comi Ceviche - que é um prato de peixe cru banhado em suco de limao com cebola e milho. Delicioso. Aliás, uma salva de palmas para a comida peruana: deliciosa e super acessível. Em Arequipa voce come em um restaurante decente por S/.3,00, pouco mais de 2 reais! E isso inclui salada, sopa, prato principal e sobremesa. Tudo muito bem feito e temperadinho.

From Arequipa

O por-do-sol atrás do Monastério de Santa Catalina.

From Arequipa

Arequipa à noite.

From Arequipa

Ceviche, um típico (e delicioso) prato peruano.

From Arequipa

Na Cevicheria com Kathrin (Alemanha), Claudia (Peru), Johnny (Irlanda) e Melisa (Peru)

No meu último dia na cidade, fui visitar a Juanita, mas encontrei com a Sarita, já que a Juanita estava de férias. Explico: Juanita é uma múmia inca que foi sacrificada como oferenda às montanhas para evitar a erupçao de um vulcao. O gelo lá de cima e as cinzas do vulcao conservaram-na em excelente estado. Mas a Juanita estava sendo cuidada pela equipe de conservaçao, entao estava a Sarita - outra mumia, um pouco menor. É forte, mas é um banho de história. Os inca eram inca-ríveis.

Além disso, visitei um casarao que abrigava pinturas feitas por índios. Os espanhóis, filhas-da-puta mais filhas-da-puta que os portugueses, obrigavam os índios a pintar motivos europeus e católicos. Os índios o faziam - mas sempre colocando um elemento indígena implícito: anjos sem asas, virgens de maos amarelas, santos com capacetes de conquistadores. Sensacional.

E logo antes de partir, eu e Claire resolvemos agitar o tédio um pouquinho. Depois de cair em Buenos Aires, perder-me em Córdoba e fazer rafting em Mendoza, era hora de...

From Arequipa


KART!

10 soles por 15 voltas no circuito (mais de 3 horas de diversao!). Fomos com mais 13 hóspedes do hostel, apostamos muitas corridas, e o único brasileiro entre tantos irlandeses, alemaes, ingleses, galeses, escoceses e australianos venceu. Com o jeitinho brasileiro, é claro, achando um atalho ainda nao descoberto, para a surpresa de todos. Yes.

Claro que, de novo, quase perdemos o onibus para Cusco. Mas chegamos. Saos e salvos, e prontos para Machu Picchu!