sábado, 31 de janeiro de 2009

Episódio 8: Arica (Chile)

Foi um pouco difícil deixar San Pedro, lugar de energia tao bacana em que conheci pessoas fantásticas. Acontece; numa viagem dessas, a gente TEM que aprender a se desapegar, ou nao vai para a frente. Entao em 5 minutos voce agradece ao universo e a si mesmo por aquela experiencia, coloca a mochila nas costas e vai rumo à próxima. E foi o que eu fiz. A caminho do terminal, passei na vendinha "Las Delícias de Carmen" (as melhores empanadas de San Pedro, e baratas!), e a Carmen e a sua filha me chamaram pelo nome, fizeram uma carinha triste quando eu disse que já estava indo, me abraçaram e me deram uma empanada de graça. Peguei a empanada e entrei no ônibus.

Em 30 segundos conheci uma menina ruiva chamada Laura que buscava o seu assento. A surpresa maior foi quando ele era do lado do meu. Passamos quase a noite inteira (12 horas de viagem) conversando em espanhol, enquanto o ônibus tocava para o norte. Ela era do País de Gales, mas falava espanhol muito melhor do que eu. Com uma flor na cabeça, parecia uma hippie ao melhor estilo "Let the sunshine in", sempre sorria e falava de amenidades.

Chegamos em Arica às 6 da manha e ainda estava escuro. Dava um pouco de medo porque a cidade tem fama de ser um pouco perigosa. Resolvemos ir para o mesmo hostel e demos com a cara na porta. Pegamos um taxi e fomos para outro, o Doña Inés, que me havia sido recomendado. Chegamos, um cara doidao nem perguntou o nosso nome, caimos na primeira cama arrumada que achamos e capotamos.

Ao acordar, fizemos o chieck-in e fomos passear juntos por Arica. A cidade fica na pontinha do norte do Chile, e de lá é possível atravessar tanto para Tacna, no Peru, como para a Bolívia. Como está numa zona que já foi palco de mil guerras territoriais, é bem nacionalista. Por todo lado vemos cartazes onde se lê "¡ARRIBA, ARICA!", e no alto do morro mais alto da cidade, ao lado do Cristo, "ARICA, SIEMPRE ARICA". No entanto, como toda cidade de fronteira, é cheia de imigrantes e tem algumas pessoas de ocupacao "duvidosa". Alguns mendigos na rua, gente pedindo esmola e alguns ladroes. Minha mochila foi aberta no meio do centro sem que eu visse. Só nao levaram nada porque as chaves e as aspirinas que eles encontraram nao devem ter sido interessantes.

Foi a primeira cidade praiana em que eu fiquei (já que Valparaíso nao tem praia, só porto), entao, sim, eu tomei banho de Pacífico. As praias sao muito bacanas, mas perdem um pouquinho para as brasileiras. E a água é gelada e cheia de águas-vivas gigantes.


Pacífico, eu cheguei!

E aí ela começou a falar Inglês. E de hippie feliz da vida ela passou apra uma socialista brava, que já fez parte de várias ONGs em Londres e nao deixa absolutamente nada passar. Entao enquanto relaxávamos na praia ou subíamos o morro para ver a vista, falávamos do absurdo em que as coisas tinham chegado, de quem sao os inimigos agora e de como ter Estados mais justos. E compartilhamos as mesmas perspectivas pessimistas.


Eu e Laura (País de Gales)!

No dia seguinte, ela estava indo embora para a Bolívia e ganhou um abraço bem apertado, quando tive a surpresa: chegaram os Irlandeses! "Entao, a gente vai viajar juntos pelo Perú", disseram. Fantástico. Passamos mais dois dias ótimos em Arica. Tomamos mais banho de Pacífico, conversamos de tudo, cozinhamos e tomamos algumas Arequipeñas geladas (cerveja de Arequipa, do Peru, que seria a nossa próxima parada).



Aquecimento para os dias peruanos!

E, pela primeira vez, saí à noite! Minha última noite de Chile pediu uma cerveja para curar a nostalgia. Saímos, tomamos todas, ouvimos muita música boa e fomos dormir. Prontos para rumar para o Peru.

E o Chile, com certeza, deixou um gosto ENORME de quero mais. Eu precisava de pelo menos mais dois meses para viajar bem pelo país. Fica pra próxima.

Beijo enorme a todos! Em breve, notícias do Perú!

Tiago

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Episódio 7: San Pedro de Atacama (Chile)

Antes de qualquer coisa: fiz a barba. Mas deixei um cavanhaque.

Como já havia dito antes, peguei o ônibus em Santiago às 12h do sábado, dia 17 de janeiro. A paisagem da janela lateral que era do ônibus, e nao do quarto de dormir, impressionou. O Chile vai ficando mais árido e mais pobre a cada quilômetro que se sobe rumo ao norte. E depois de 22 horas, cheguei ao deserto mais árido do mundo, na mimosa cidade de San Pedro de Atacama.

From San Pedro de Atacama


San Pedro se parece com um lugarejo mineiro. Sao como 4 por 4 ruas, mas o lugar é uma verdadeira meca de turistas de todo o mundo. É realmente difícil conhecer um verdadeiro atacameño aqui, ainda que o lugar seja cheio de chilenos hippies e gente de todo mundo em busca de uma vida diferente.

Assim que cheguei, encontrei um hostel que tinha uma caminha em um dormitório para mim. Incrível: dormi na cama de cima de um trelixe (a mais ou menos 3 metros de altura). Tudo aqui é muito rústico, as casas sao de adobe, o telhado é de palha, os banheiros tem pouca água e os banhos sao de, no maximo, 3 minutos. Contudo, a atmosfera é incrível. Música viajante por todos os lados e uma energia muito bacana (que acabou me segurando aqui por quase uma semana). Na tarde do primeiro dia, uma surpresa: chuva. O céu armou, começou a pingar e, dois minutos depois... parou. E é essa a chuva que se tem aqui 10 vezes por ano. Faltam 9.

From San Pedro de Atacama



No dia seguinte, comprei o passeio para Uyuni, e essa parte voces já sabem. Cheguei de volta a San Pedro na quinta-feira, e conheci quatro brasileiros bacaníssimos que me fizeram ótima companhia por dois dias. E foi na quinta que eu tive uma das noites mais fantásticas da minha vida: comprei o tour de observaçao astronomica à meia-noite. Para quem nao sabe, o deserto mais árido do mundo tem também o céu mais nítido do mundo. E o céu mais maravilhoso que eu já vi. No tour, vamos até a casa de um casal de franceses que sao astrônomos. Com um super raio laser, eles apontam todas as constelaçoes, galáxias e nebulosas. Depois, nos telescópios, vemos Saturno, nebulosas "comilonas" e estrelas super-brilhantes. Para terminar o tour, tomamos um chocolate quente na sala de estar dos franceses. Uma fogueira no centro (para combater o firo de 0 grau) e um teto com uma clarabóia enorme. Cheguei ao hostel quase às 5 da manha.

From San Pedro de Atacama

(Sim, é Saturno!)

Na sexta, mais um tour louco: Laguna Cejar. Essa lagoa tem 3 vezes mais sal que o Mar Morto. Adivinha o que acontece: a gente flutua. É impossível afundar. Sensaçao única na vida! Ninguém pode morrer sem passar por uma dessas. O passeio termina com a visita aos Ojos del Salar, dois buracos cheios d'água com 300m de profundidade no meio do deserto, e com o por do sol no Salar de Atacama: mais modesto que o de Uyuni, mas com uma vista igualmente surreal.

From San Pedro de Atacama

Os Ojos del Salar.

From San Pedro de Atacama

No Salar de Atacama.

From San Pedro de Atacama

O por-do-sol, agressivamente bonito.

No sábado conheci dois irlandeses sensacionais, o Jonnathan e a Claire, e nós combinamos de visitar o Valle de la Luna juntos. Realmente, sao paisagens lunares. O por do sol no Valle de la Luna é mais uma visao surreal (incrível como nessa semana o surreal se tornou trivial). A única desvantagem é o foco excessivamente turístico em tudo no deserto. Depois dos quatro dias quase crus de Uyuni, isso foi um certo banho de água fria. A gente acaba tomando uma certa aversao por turistas com chapeu de palha, garrafa d'àgua na mao e camera fotografica em riste depois de um mes mochilando. Ossos do ofício.

From San Pedro de Atacama

Eu, com o vulcao Licancábur ao fundo.

From San Pedro de Atacama

Eu e Jonnathan (Irlanda)

From San Pedro de Atacama

Eu e Claire (Irlanda)

Agora tao importantes quanto as paisagens lunares, os cenarios surreais e as visoes embasbacantes foram as pessoas: aqui tive mais uma porçao de dias em companhias inesqueciveis - do staff do hostel aos hóspedes deles, do moço da padaria à Carmen, fabricante da melhor empanada da regiao. Ontem à noite, tive festa de despedida e tudo mais. Foi uma piada: dois outros suecos tambem estavam indo embora, e a gente organizou uma festa em que tocasse muito Abba. Acho que nunca ri tanto na minha vida.

From San Pedro de Atacama

Festa de despedida no Hostel em San Pedro. Tem francês, sueco, neozelandesas, ingleses, holandesas, chilenos e irlandeses. De brasileiro, só eu.

From San Pedro de Atacama

Com a Francisca e o Temuco, que trabalham no hostel.

Hoje à noite, seguindo para Arica. Um banho no Pacífico deve coroar meus últimos dias de Chile - esse país inesquecível.

From San Pedro de Atacama


Beijo enorme a todos!

Tiago

PS: Em uma dessas camas da Bolívia, peguei percevejos. Acho que tenho umas 30 picadas em cada mao. Da próxima vez, me hospedo no Ritz.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Episódio 6: Uyuni (Bolívia)

Entao, esclarecendo: no meu roteiro original eu tinha, como ponto de parada entre Santiago e San Pedro de Atacama, a cidade costeira de La Serena, que fica no meio do caminho. Cortei do roteiro, com o objetivo de ganhar mais tempo no norte do Chile, Peru e Bolívia, que sempre foram os lugares onde eu realmente queria chegar.

Depois de 22 horas de viagem em um onibus que passava Buffy, Charmed e The Nanny, cheguei a San Pedro de Atacama no domingo, dia 18 de janeiro. Contudo, assim que cheguei, comprei o passeio para o Salar de Uyuni, na Bolívia, que fica mais perto daqui porque La Paz (San Pedro fica a uma hora da fronteira com o sudoeste da Bolívia). Depois voltei para San Pedro, onde ainda estou. Do deserto do Atacama eu falo no próximo post, entao. Hoje eu falo dos 4 dias viajando até Uyuni.

Um toyota 4x4 antigo, muitos solavancos pelo meio caminho, 5 aventureiros, quatro dias de Cumbia Boliviana (um estilo musical que voces nao querem ouvir), neve, frio em pleno verao, altitudes desumanas e muitas paisagens maravilhosas. Sao esses os ingredientes do passeio até o salar de Uyuni (e de volta a San Pedro). Vamos contar dia por dia.

No primeiro dia, eu e o Matt, um ingles de Liverpool que estava no mesmo hostel que eu, acordamos cedinho e fomos para a porta da agencia aonde tinhamos comprado o pacote. La ja conhecemos a Alicia (EUA), o Martín e o Sebastián (Argentina), que dividiriam os próximos quatro dias conosco. Pegamos o transfer até a fronteira com a Bolívia, carimbanos nosso passaporte e a primeira surpresa já veio: neve e frio de -5 graus.

From Uyuni

Essas botas já pisaram em tudo quanto é coisa...

Em seguida, começamos a saculejar no Toyota antigo para chegarmos à Laguna Verde, uma lagoa rasade cor incomparável que fica a 4.000m de altura. Ah, e logo atrás dela tá o vulcao Licancabur. Só para voces entenderem a foto, do lado de lá do vulcao está San Pedro de Atacama.

From Uyuni

A Laguna Verde, com vista para o vulcao Licancábur.

Em seguida, para vencer a temperatura bem mais quente de 6 graus celcius, tomamos um banho nas águas termais. A agua brota do solo a uma temperatura de 35 graus. E foi nela que eu dancei: esqueci o protetor solar e, apesar do frio, fiquei queimado igual a gringo no Rio.

From Uyuni

E isso tudo a 6 graus...

Subimos mais, mais, mais e mais e chegamos em um "hotel" no meio do nada no altiplano boliviano às 4 da tarde. Quarto compartilhado por nós 5, nada de banho ou água quente. Engolimos o almoço mais ou menos e ficamos nos perguntando o por quê de estarmos lá tao cedo. Logo entendemos: estávamos a 4.300m de altitude, 200m a mais que Potosí, a cidade mais alta do mundo. Eu comecei a ter uma dor de cabeça forte, e logo depois de comer um espaguete meia-boca na janta, quis vomitar tudo. Fiquei tonto e nao conseguia andar em linha reta. Só com chá de coca mesmo para melhorar. Funciona, viu. Na hora de dormir, todos tivemos problemas. O Martín teve delírios, o Matt nao tinha energia para se mover na cama, eu podia ouvir o meu coraçao do meu travesseiro. Punk. Mas sobrevivemos e fomos para o segundo dia. Sem banho.

Segundo dia. Logo após o amanhecer, fomos à Laguna Colorada. Emocionante: uma lagoa rosa e azul lotada de flamingos e cheia de llamas em volta. Nunca mais vou me esquecer daquela paisagem. Mais tarde, um almoço à beira de outro vulcao (pure de batatas com arroz) e, depois, hotel de sal. É um hotel feito à beira do salar, com blocos de sal. Com banho. Mas sem energia eletrica. Ficamos ate a meia-noite compartilhando jogos de baralho dos nossos paises e bebendo vinho à luz de velas. Bacaníssimo.

From Uyuni

Os flamingos, aves mais do que majestosas, na Laguna Colorada.

From Uyuni

A Laguna Colorada. Reparem nas llamas cruzando ao fundo...

From Uyuni

Da esquerda para direita: Sebastián e Martín (Arg), eu, Matt (Inglaterra) e Alicia (EUA) no hotel de sal, bebendo vinho boliviano e jogando cartas.

Terceiro dia. Direto do hotel para o Salar de Uyuni, uma planície de sal de 12.000km2 no meio do altiplano boliviano. O salar é emocionante: alguns dizem que ele existe porque ali, há muitos milênios, já houve um lago salgado que evaporou. Outros dizem que o sal vem por vias subterraneas. Nao importa, ele está lá e é lindo. No meio do salar existe uma ilha (Ilha do Pescado), com cactus de 6 metros de altura e uma vista deslumbrante. Depois do Salar, fomos para Uyuni, cidade da Bolívia que nao comporta muita coisa além das agencias de turismo que nos levam ao salar e um cemitério de trens completamente desolado. Nos despedimos dos dois argentinos,que escolheram ficar por lá, e começamos o caminho de volta para San Pedro. Dormimos em uma cidadezinha chamada Villa Mar. Sopa de vegetais rala e pure de batatas de jantar. Banho, sim, mas o frio de 0 grau nao encorajava. Dormimos.

From Uyuni

Na Isla del Pescado, dentro do salar.

From Uyuni

O salar de Uyuni. Sem palavras.

From Uyuni

Eu e Matt. A gente aproveitou para fazer fotos divertidas...

From Uyuni

Alicia comigo e com o Matt nas maos...

From Uyuni

Mesmo sem banho a gente teve estilo...

From Uyuni

No cemitério de trens em Uyuni. Desolado.

Quarto dia. Horrível: acordamos às 4 da manha (-15 graus) para sair para a fronteira. No caminho, dois pneus furados ("ah, deve ser por isso que a gente acordou cedo"). Cerca de meio-dia eu estava de volta a San Pedro. E aqui eu estou, desde entao. Ou por enquanto...

Resumo da ópera: o cenário da viagem mudou. Por 4 dias, vi paisagens absolutamente surreais, desoladas, de uma beleza gritante. Os quatro dias de passeio foram como uma imersaoem um universo quase de Dalí. Inesquecível.

Mais notícias assim que sair do deserto de Atacama, o lugar mais árido do mundo... Beijos a todos! Saudades enormes do Brasil!

sábado, 17 de janeiro de 2009

Episódio 5: Santiago e Valparaíso

Depois de um banho de Cordilheira (e de Aduana, já que foram quase 3 horas para cruzar a fronteira), cheguei a Santiago. A cidade pode ser reconhecida de longe pela densa nuvem de smog (poluicao misturada a neblina) que paira sobre ela. O que de fato e uma pena, porque a cidade e abracada pela Cordilheira dos Andes. Contudo, mal se pode ve-la: a poluicao so permite que reconhecamos sua silhueta.

A chegada em Santiago foi um pouco complicada. O hostel que eu achei que tinha reservado me colocou na lista de espera. 7 horas da noite (ou da tarde, como dizem por aqui) e eu rodando o Barrio Brasil, o reduto boemio de Santiago, com a mochila nas costas e batendo de porta em porta para achar abrigo. Achei, no fim das contas, mas nao foi dos melhores: um hostel da HI que era meio esteril, digamos assim.

No dia seguinte, fui passear pelo centro de Santiago. A cidade e bem urbanoide mesmo, meio Sao Paulo (talvez mais limpa, organizada e um pouco menor). Ela e cheia de cerros, que sao uns morros transformados em parques, pracas, diferente de tudo o que eu ja tinha visto antes. E por ser uma cidade antiga, mescla o classico ao mais moderno de forma positiva. Fora a poluicao, que realmente incomoda.

From Santiago

A Casa de La Moneda, casa da Sra. Bachelet (nao muito bem quista pela maior parte dos chilenos, que a consideram "leviana", ou seja leve e liberal demais).

From Santiago

No alto do Cerro Santa Lucia, com vista para a polui..., digo, a cidade toda.

Como era terca, nao via muitos outros atrativos na cidade, nao tinha gostado do hostel onde estava, resolvi partir pra Valparaíso. Aí a surpresa foi extremamente grata.

Em Valpo (como a cidade e chamada pelos chilenos), me bateu um frio na barriga quando reconheci o azul do Pacífico: "Puta merda, cheguei ao outro lado do continente! Sozinho! Consegui!". E isso no meio de uma cidade portuaria antiga, charmosa, boemia, toda cheia de montanhas e constantemente sobrevoada por andorinhas. Parece uma favela de 1920 a beira-mar. Linda, linda. Passei o dia todo perambulando pelas suas ruas e becos sozinho. Uma sensacao muito boa e muito ruim ao mesmo tempo, ja que eu estava bem a flor da pele e nao tinha outra pessoa pra comparilhar. Nem podia escrever no meu diario, porque nao tinha caneta e as papelarias estavam fechadas. Aquelas coisas que aparecem na nossa vida para que a gente lide com elas.

From Santiago

Valparaiso. Uma das teteias da minha viagem.

From Santiago

O porto, o Pacífico!

Puxei papo com um chileno na Lan House e descobri que havia uma boate legal para sair la. Bacana, pensei. E uma chance de conhecer gente daqui, colocar essa energia para fora e ainda sair, pela primeira vez no mochilao.

Entao, comprei comida para cozinhar, uma garrafa de Concha y Toro e fui para o alojamiento. Era basicamente um pensionato muito bacana, perto do terminal da rodoviaria, com jeitinho de casa familiar. Pela primeira vez em 21 dias de viagem, quarto so para mim. E cama de casal! Fui cozinhar e, na cozinha, estava a Carmen, uma Santiaguina simpatisíssima (e hilária), que acabou cozinhando para mim, por que "a los hombres, se quieren hierver el agua, lo queiman todo!". Devolvi o favor partilhando do vinho e, duas horas depois, estávamos borrachos, falando de Pinochet y etc. Claro que eu nem vi cheiro de boate, e tive uma noite muito melhor do que esperava.

From Santiago

Carmen e Luis, dois chilenos extremamente queridos, lá no alojamiento.

No dia seguinte, resolvi dar uma segunda chance a Santiago. E valeu a pena. De volta aqui, achei um albergue mais legal, passeei por Bellas Artes, um bairro central mais nobre da cidade, e conheci um pessoal muito bacana no hostel. Dessa vez, queria sair para dancar. Depois de mais Concha y Toro, falei que ia tomar banho para me arrumar e acordei na minha cama no dia seguinte.

E ontem, depois de tanto Concha y Toro, foi o dia de conhecer a vinicola Concha y Toro de fato. Uma palavra em ingles: touristy. Fiz o tour pelo lugar acompanhado de um bando de brasileiros que me deram vergonha alheia. Devem ter comprado um pacote vagabundo da CVC e ficaram rodando a vinicula inteira com seus bones de excursao, o guia chato e a camera sempre na mao. Incrivel como eles olham com a camera antes de olhar com os olhos. E nao vivem de fato o lugar onde estao. Em vez de degustar o vinho, ficaram entornando tudo e pedindo mais. Que vergonha, mesmo. Mas pelo menos foi legal, deu pra conhecer a origem do Casillero del Diablo. E eu estava com uma turma bacana, o Mike, um californiano, e o Fernando e o Rafael, dois paulistanos muito bacanas. Na volta, pegamos um onibus e ficamos conversando com uma senhora chilena que queria aprender a sambar ali mesmo. Essa parte o pessoal da CVC sempre perde... A noite, depois de mais uma garrafa de Concha y Toro, me arrumei para sair. Dei uma encostadinha na minha cama e acordei hoje. Merda, acho que boate, so em BH mesmo.

From Santiago

Na vinicola.

Algumas curiosidades sobre Santiago: aqui e proibido beber na rua. Um golinho sequer, e la vem o Carabinero de Chile pra cima de voce. Os bares e boates sao obrigados a fechar as 4 da manha. O sistema de metro e invejavel: limpo, moderno e cobre a cidade inteira (chegando a ir alem dela). Outra coisa: voce pisa na faixa de pedestre, indica com a mao para onde vai e os carros param. E a comida e ESTRANHA. Nas esquinas, vende-se mote helado, uma bebida de acucar em calda, trigo (em pedacos) e pessego. Tudo a ver. E querem ver mais o que que se vende por aqui? Humita. Quem pensava que pamonha era privilegio de mineiro e goiano, dancou.

From Santiago

Olha a Humita ai...

From Santiago

Mote Helado, ou a bebida mais estranha e indigesta que ja tomei.

Daqui a uma hora embarcando para o Deserto de Atacama!

Beijos a todos!

Tiago

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Interrompendo para os comerciais

Entao, hoje meu mochilao sopra velinhas: sao 3 semanas, ou 21 dias, ou 504 horas viajando. Entao, quebrando a narraçao foto-episódica da viagem, vamos aos comerciais: os tops.

Nesses 21 dias de viagem...

Top 5 Barganhas:

1. Almoço em Valparaíso (Chile): 1.000 pesos chilenos por um prato com arroz, tomate, dois ovos fritos e um pao (com til), mais uma garrafa de Pepsi. Isso corresponde a 4 reais.

2. Quarto em Valparaíso (Chile): 6.000 pesos para um quarto com cama-de-casal, edredon macio e quentinho e um sono gostoso, longo e, melhor de tudo, privado, depois de 21 dias dividindo quarto. Isso corresponde a 24 reais.

3. Vinhos em Mendoza (Argentina): Nos mercados, 20 pesos pelos melhores Malbec que já tomei na vida. No Brasil, eles custariam entre 60 e 80 reais. Aqui, saiu por mais ou menos 15.

4. Empanadas em Buenos Aires (Argentina): Ar$2,50 pelas empanadas mais gostosas que já comi. Isso corresponde a pouco menos de 2 reais. É claro que elas sempre eram meu almoço.

5. Cervejas na Argentina. Ar$3,15 por garrafas de um litro (sim, Sarah!) de Brahma, Quilmes ou Andes. Isso corresponde a menos de R$2,50. O problema é beber nos bares, quando o preço é multiplicado por 6.

Top 3 roubadas:

1. Pacotes turísticos vendidos em albergues (no continente inteiro!): Cobram Ar$150,00 por um
passeio que, feito por conta própria, vai te custar Ar$20,00.

2. Tentar puxar papo com a maioria dos atendentes em Buenos Aires (Argentina). Fui a um locutório (cabines telefonicas) e nao sabia se tinha que pagar antes ou depois. Perguntei à atendente: "¿Como puedo usar ese telefono?" e a atrevida me respondeu "Presiona los numeros".

3. Cruzar a fronteira da Argentina para o Chile. 3 horas de fila, uma passagem pela imigraçao argentina, uma passagem pela policia internacional chilena e uma passagem pelos carabineros do chile, que só nao revistam o seu baço porque o acesso nao é fácil.

Top 5 coisas bizarras:

1. Quando você desce de um táxi ou ônibus nos terminais rodoviários da Argentina, uma pessoa pega a sua mochila, tira do veículo e coloca no chao. E ela vai te cobrar propina por este serviço, que até a sua avó faria. E nem pense em recusar. Até os argentinos dao.

2. A comida chilena em geral, com destaque para uma bebida chamada Mote, vendida em cada quarteirao de Santiago. Trigo, uma calda nao identificada e uns pessegos flutuando. Helado! Passei mal o dia inteiro por causa de um desses.

3. O metrô de Buenos Aires, que parece um museu ambulante. Mas é charmosíssimo, apesar da idade extremamente avançada.

4. O cemitério da Recoleta, em Buenos Aires. Já sonhou em ver caixoes expostos? Vai encontrar muitos por lá. Alguns, indesejavelmente, entreabertos.

5. O Instituto Butatan, em Sao Paulo. Muito bicho venenoso por metro quadrado.

Top 5 momentos inesquecíveis

1. Ficar perdido em todos os lugares de Córdoba e regiao com a Madryn.

2. Passar uma noite bebendo vinho com 4 chilenas em Valparaíso (Chile). O relato vem em breve.

3. Dizer "¡Deliciosa!" para uma boliviana que fez um jantar vegetariano para mim em Santiago e ouvir como resposta "¿Yo o la comida?"

4. Atravessar a cordilheira dos Andes por 7 horas, embasbacado e com os olhos cheios dágua.

5. O tombo logo na chegada em Buenos Aires, com a menininha mais fofa do mundo perguntando se eu estava machucado.

Daqui a mais algumas semanas, mais tops. E daqui a alguns dias, o relato de Santiago e Valparaíso. Beijos a todos!

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Episódio 4 e meio: de Mendoza a Santiago

O título desse post deveria se chamar "A viagem mais linda de ônibus que eu já fiz". O ônibus deixa a Argentina por uma estrada tortuosa que atravessa a Cordilheira dos Andes. A estrada começa em um deserto, a subida se inicia, os Andes que antes eram pano de fundo viram protagonistas, e de repente você se encontra no meio dos picos nevados. A neve, no verao, derrete e forma lindas cachoeiras e rios de montanha. E nao é nem um pouco difícil avistar condores voando sobre as montanhas ou dando um rasante nas estradas. Embasbacante.

A fronteira (Los Libertadores) fica a mais de 3.000m de altitude. E como é frio, mesmo com um sol de lascar...

Chega de falar. Lá vao as fotos:

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Episódio 4: Mendoza

Nao comecei com o pé direito aqui. Peguei um onibus da companhia Cata de Córdoba para cá, e descobri que o nome da companhia é esse porque ela CATA gente em toda cidade por onde passa. Parou umas 22 vezes, mais ou menos, e lá pela 23a., todo mundo desceu, e eu também. Peguei a minha mochila, recusei a propina do cara que simplesmente tirou a minha mochila do onibus e colocou no chao. O onibus arrancou e, de repente, vi a placa "Bienvenidos a San Juan", e pela vigésima vez na viagem, pensei, fodeu! Corri atrás do onibus acenando e gritando "Vuelve!", ele parou, entrei de novo e segui viagem, até chegar em Mendoza.

Achei um albergue razoável (dormitório, piscina e vinho ruim de graça por Ar$40), resolvi ficar por aqui. A questao é que o albergue estava muito vazio e, pela primeira vez nesta viagem, me senti muito sozinho. Paciência. Fui caminhar pelo centro da cidade.

Entao, Mendoza é outro lugar incrível. Localizada na regiao do Cuyo argentino, a cidade está no meio de um deserto. Vamos lembrar que aqui a gente dá de cara com os Andes para todo lado, e que eles sao um paredao que nao deixa massa de ar úmido nenhuma passar. Logo, atrás deles (ou seja, aqui), deserto. Para piorar a situaçao, a cidade foi devastada por um terremoto no século XIX e nao sobrou absolutamente nada.

Aí é que vem a parte interessante. Na reconstruçao, bolaram um invejavel sistema de irrigaçao. Entre a rua e a calçada (por toda a cidade) passa um mini canal, e esses mini canais se encontram e formam canais grandoes. A cidade é toda arborizada, quadradinha, e, para evitar as consequencias dramáticas de outros terremotos, as ruas sao super largas, e de 5 em 5 quarteiroes, no microcentro, há uma praça linda. Ah, e com a evaporaçao da água, chove. Ou seja, de deserto aqui, só o calor.

From Mendoza

Fonte na Plaza de la Independencia.

From Mendoza

Noite chuvosa em pleno deserto. Eram 22h.

No segundo dia, chegou mais um bando de gent epor aqui, inclusive um brasileiro chamado Uirá que chegou em Mendoza com 70 centavos de peso (mais ou menos 40 de real), já que nao coonseguia sacar dinheiro no seu cartao. Tentamos resolver o problema dele e, depois, fomos ao Parque San Martin subir um morro chamado Cerro de la Gloria, de onde podíamos ver o pôr-do-sol nos Andes. Quanto aos Andes... bom, nao dá pra descrever. Venham para cá e vejam.

From Mendoza


Aí, no dia seguinte, como eu estava um pouco entediado, resolvi dar uma agitada na rotina. Já que a neve dos Andes derrete no verao, os rios ficam caudalosos e violentos (especialmente o rio Mendoza). O que é ideal para um pouquinho de rafting.

From Mendoza

Eu e Uirá, antes.

From Mendoza

Levando os barcos para o rio...

From Mendoza

Depois, no ponto de chegada.

Obviamente, nao tiramos fotos do evento em si, mas foi sensacional. Nada de extrema dificuldade, alguns banhos de água gelada e um tanto de adrenalina (principalmente quando você se vê caindo do barco). Um dos momentos mais legais da viagem, com certeza.

À noite, como eu tinha economizado bastante por aqui, momento splurge com o Uirá, a Geíse e a Marina (duas cariocas que estavam voltando do Atacama) e o Chad, um americano de Seattle que adora Pearl Jam. Vinho e pasta num restaurante italiano.

E, depois de vários litros de vinho Malbec de Mendoza, me despeço desse país fabuloso (e nem um pouco pior que o Brasil, viu, patriotas bairristas?)Don't cry for me, Argentina! Eu voltarei.

Daui a uma hora, entro no ônibus para Santiago.
Beijo enormes a todos!

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Episódio 3: Córdoba.

Na segunda de manhã, cheguei a Córdoba. Foi uma chegada bem mais madura, com o coraçao bem mais tranquilo. O frio na barriga sempre vai acontecer, eu acho.

Cheguei no terminal, me despedi da dona Isabel, minha companheira de viagem que me ensinou um tanto sobre as dificuldades financeiras dos argentinos, peguei um mapa da cidade e fui para o albergue Tango. Na hora que cheguei lá, pensei, fudeu! Um quarto completamente bagunçado que eu dividiria com uma inglesa que tinha os pés mais sujos que eu já vi, e mais um outro inglês que dormia o sono de quem tivesse tomado um barril de vinho na noite anterior.

Essa inglesa acabou acordando, puxou assunto comigo e se apresentou. Se chama Madryn, é professora de literatura em Londres, socialista, e está fazendo uma viagem de 6 meses por estas bandas de cá. Ela já estava em Córdoba há mais tempo e falou que naquele dia iria a Alta Gracia, uma cidade a 40min daqui, para visitar a casa do Che (sim, o Guevara), que tinha virado museu. Estava só esperando um amigo acordar. Quando o amigo acordou, vi que era o Chris, um holandês que eu já tinha conhecido em Buenos Aires. Pensei "ah, posso passear por Córdoba outro dia" e fui com eles.

Dia INCRÍVEL. Alta Gracia lembra uma cidade interiorana de Minas Gerais (a região daqui é montanhesa) e a casa do Che é sensacional. Nada de alarde, muita informação. Fotos da vida dele toda, rotas das viagens (e ele era um mochileiro de primeira), e até uma versão reconstituída de la poderosa!

No dia seguinte, fizemos o passeio Altas Cumbres, pelo Parque Nacional Quebrada del Condorrito. Poderíamos ter comprado no hostel, mas fizemos por conta própria. A Madryn me ensinou a ser audacioso e dar a cara a tapa: faça tudo o que for possível por conta própria em vez de comprar passeios. É mais barato, voce se mete em mil enrascadas, não tem um guia chato te amolando e ainda volta para o albergue cheio de história para contar. Como eu pude contar que a gente foi para um lugar de 2.000m de altitude, no alto da montanha, cheio de neblina, com chuvas congelantes ocasionalmente, com trajes de verão no deserto. Quase congelei. Vimos um condor a 10m de distância (que bicho imponente), comemos pilhas de biscoitos cream crackers com tomate, ficamos com medo de pumas (sim, elas existem por aqui) e claro, nos perdemos.

No fim das contas, para chegar ao restaurante onde o onibus nos pegaria, tivemos que atolar as botas num brejo, passar por baixo de cercas, subir numa pedra enorme e eventualmente tomar uns tombos. O caminho mais difícil é sempre mais legal. E tudo isso por 60 pesos (o tour custava 180).

Ontem, fiz um passeio por Córdoba com o Martin, um alemão que fala espanhol melhor que os argentinos. Igreja, igreja, igreja, universidade, museu, museu, cripta jesuítica, piscina pública. Sim, piscina pública! Mas não a encontramos. Claro, nos perdemos.

Mas se perder aqui é divertidíssimo. Isso te obriga a pedir informações aos cordobeses e eles são as figuras mais amáveis do planeta. Voce consegue as informações que quer, fica conversando por mais de 20 minutos, fala de futebol, fal do Brasil, eles respondem com um "¡que lindo!", voce despede deles, e no fim das contas nao se lembra mais das coordenadas que eles te deram.

À noite, muita cerveja com o pessoal do hostel. A Madryn foi embora pra Buenos Aires, e essa foi a despedida mais difícil que eu tive. De inglesa porca de pé sujo ela foi promovida, em segundos, a uma das melhores companhias da viagem. A gente se despediu com os olhos cheios d'água e a voz engasgada, e ela falou "Eu quero te ver de novo, e um dia ainda te encontro no Brasil". Espero que sim. Depois, passei a noite conversando com o Tim, um americano radicalmente socialista com quem eu tinha tido uma puta discussão uma noite atrás. No fim das contas, a gente estava se abraçando e dando gargalhadas. Uma figuraça, ele. É uma merda ter que ir embora e ter que deixar as pessoas irem embora. Mas isso me ensina muito sobre relações: quem somos nós para interferir no caminho dos outros... o melhor é viver o possível e o impossível com a figura, e na hora que os caminhos não se cruzam mais, despedir-se com um sorriso enorme, agradecer por tudo e, bem, quem sabe em outra vida a gente se encontra...

Córdoba me encantou. E me ensinou muita coisa.

Hoje à noite embarco pra Mendoza. Beijo enorme a todos. Seguem as fotos:

From Córdoba


Madryn (Inglaterra), Chris (Holanda) e eu na caminhada de 20km da Quebrada del Condorrito.

From Córdoba


A paisagem embasbacante das montanhas do Parque no meio das neblinas.

From Córdoba


Os passarinhos que ficavam atrás da gente quando tentávamos ver os condores. Eles quase falaram "It´s not all about condors, you know?"

From Córdoba


Eu numa rua do centro...

From Córdoba


A modesta arquitetura local.

From Córdoba


Hope I see you soon, Madryn!